O Inferno de Tetsuya

3 de maio de 1998, chovia nos pés do Monte Fuji.

Shinichi Yamaji parava seu fulvo RX-7 no final da área de escape da saída dos boxes do Fuji Speedway, batia o cinto, pegava o extintor de halon que portava dentro do carro e pulava pela porta de seu Mazda em direção ao forno siderúrgico que havia se tornado a Ferrari 355 de Tetsuya Ota, soltava o pino de metal e começava a despejar o haloalcano por entre as chamas do que um dia foi um esportivo italiano pilotado por um japonês especialista em Ferraris.

Qualquer um que visse a cena nas arquibancadas do autódromo, por baixo dos guarda-chuvas ou pela televisão acreditaria piamente que o piloto dentro do esportivo rubro era definitivamente um homem morto e totalmente carbonizado, porém, enquanto apagava as chamas, Yamaji não acreditava que aquele corpo calcinado pelos 800º C que salpicavam o alumínio italiano ainda se mexia, tentando se livrar dos cintos que ainda prendiam ele ao assento e ao forno que aquele carro havia se tornado. O piloto da RE-Amemiya pôs o corpo para dentro do carro – já com as chamas apagadas e tomado pela fumaça do halon/rescaldo das chamas -, bateu gentilmente o cinto de seis pontos que prendia Tetsuya no carro, o pegou pelo braço e o arrastou para fora do carro e para dentro dos pingos gordos de água que atingiam o asfalto japonês. Lá, Tetsuya ficou, caído inerte no asfalto, com a fumaça do vapor d’água saindo de seu capacete calcinado pelas chamas que fora retirado, sob a chuva que fustigava o corpo flamejado. Era um morto, parecia um morto.

Yamaji foi direto soltar a fúria de quem resgatou sozinho um piloto do inferno que seu veiculo havia se tornado com os fiscais de pista, que haviam acabado de chegar. Um deles, chegou perto do corpo inerte de Tetsuya, para tentar retirar o capacete quando o piloto começa mover a cabeça, como ser tivesse acordado, o fiscal o larga e vai tirar o extintor de perto do carro, pois não era mais necessário. Nisso, o piloto da Ferrari tenta levantar, lentamente fica de joelhos, mas as dores das queimaduras foram mais fortes e acabam por o derrubar de costas ao chão, se vira, tenta novamente levantar, mas dessa vez, é ajudado por um fiscal de pista, que o levanta e tenta o levar dali, Tetsuya começa a ficar agitado, levando as mãos aos restos derretidos da viseira do capacete, tentando tirar o plastico derretido que caia como pingos de ácido em sua face, chega um segundo fiscal e uma van, ele abre a porta do carro, põe o piloto para dentro e a van sai em disparada para o centro médico do autódromo.

Bolas de fogo: A colisão entre a Ferrari de Ota e a Porsche de Hatori provocou um incêndio instantâneo.
Bolas de fogo: A colisão entre a Ferrari de Ota e a Porsche de Hoshino provocou um incêndio instantâneo.

Quem via estas cenas pela televisão ou nas arquibancadas pouco acreditava no que estava por acontecer ali perto daquele esportivo assomado, na verdade, mal acreditava em toda a macabra cena que via nos últimos dois minutos na volta de apresentação da segunda etapa da JGTC – Japan Gran Touring Championship/Campeonato Japonês de Gran Turismo -, no Fuji Speedway, em Oyama. Cinco minutos antes, Tetsuya Ota alinhava calmamente sua Ferrari 355 Challenge no grid para a All-Japan Fuji GT Race, abaixo de uma chuva torrencial e uma neblina espessa, eram condições adversas, porém Tetsuya não era um novato para se preocupar em demasia com tais condições, no seu currículo, já contava quatro participações nas 24 horas de Le Mans, corridas em categorias que variavam da Fórmula 3000 japonesa à Fuji Grand Champion Series – um campeonato de protótipos 2 litros que corria somente em Fuji – e participava da JGTC desde sua criação em 1994, pilotando tão somente os veículos produzidos em Maranello. Definitivamente, Tetsuya não era um novato, porém, nada em sua experiencia poderia lhe preparar para o que aconteceria com ele naquele dia. A corrida nos pés do Monte Fuji largava sobre as condições mais adversas. Liderados pelo safety car e nas voltas de apresentação, o longo grid da categoria japonesa se retorcia como uma minhoca pelas curvas de Fuji nas duas longas e lentas voltas pela encharcada pista, porém, mesmo no momento em que a segurança deveria estar ratificada pela lenta passagem do safety car, algo estava profundamente errado.

Perdoem-me a grotesca imagem, mas assim que as coias aconteceram
Perdoem-me a grotesca imagem, mas assim que as coias aconteceram

No momento em que o carro de segurança ganhava a reta, indo para a 1st – sim, esse é o nome da curva -, ele estava a pouco mais de 150km/h, que em tal situação era um perigo real. Na hora em que o carro freou para a entrada da curva – forçando o resto do grid a fazer o mesmo – a confusão se instalou na metade da fila: o Porsche 911 RSR da 910 Racing, pilotado por Tomohiko Sunako aquaplana e acerta em cheio a traseira do Porsche 911 GT2 de Kaoru Hoshino, o atirando direto contra o muro do lado esquerdo da pista, no mesmo tempo, a BMW M3 de Yasushi Hitotsuyama sai da pista para evitar a colisão com o Porsche de Hoshino, bandeira amarela. Poucos segundos depois, Tetsuya Ota aquaplana sua Ferrari e vai de encontro com o Porsche de Hoshino, colide contra sua frente e começa a arder vigorosamente em chamas, espalhando combustível pelo chão e criando uma nuvem de fumaça negra digna da explosão de bombas. A Ferrari de Tetsuya ainda bateu no muro do lado externo da pista, a atravessou – quase acertando outro Porsche – e parou na área de escape da saída dos pits, em chamas. A confusão entre dois Porsches no meio do grid havia acabado de se tornar um pandemônio.

Naquele momento, Hoshino batia seu cinto e saia de seu Porsche – que também pegava fogo, porém em uma escala muito menor – de quatro, se arrastando pela grama suja de borracha e lama, com sua perna direita fraturada, naquele momento, o atendimento médico era todo para o piloto e sua perna quebrada. No mesmo momento, Tetsuya passava por seu inferno pessoal, a mais de 800ºC por um minuto e meio até a vinda da equipe de fiscais do autódromo, enquanto Yamaji tentava apagar as chamas do carro com o extintor que tinha em mãos.

O capacete de Tetsuya após o acidente.
          O capacete de Tetsuya após o acidente.

Após lhe retirarem do carro e leva-lo até uma ambulância em uma van da organização, o piloto foi levado para o hospital de Gotemba, com queimaduras de terceiro grau no face – estas principalmente devido a viseira, que derreteu na face do piloto -, no pescoço e menores no braço, ombro, mão direita e intoxicação devido a fumaça inalada do incêndio. Foi necessária uma cirurgia plastica no nariz, para sua reconstrução e Tetsuya acabou com problemas na movimentação de seu ombro, braço e dedos da mão direita, devido as queimaduras sofridas, o que encerrou sua carreira como piloto.

Após sua recuperação, em novembro de 1999, Tetsuya entrou com um processo na justiça japonesa contra a organização da corrida, a empresa que controla o Fuji Speedway, a federação japonesa de automobilismo e a TV Tokyo, que transmitia o evento, pedindo uma indenização de 290 milhões de ienes – R$8 milhões. Haviam boas razões para que Tetsuya entrasse com este processo, uma vez que as chamas do carros dele só começaram a ser combatidas 50 segundos após o acidente – a ainda por um piloto – e só foi resgatado pelos fiscais de pista – ao invés de ter sido retirado por uma equipe médica – 90 segundos após o seu acidente acontecer, para ambos os casos, o limite são 30 segundos e o fato que o safety car andava à 150 km/h, ao invés dos 60 km/h recomendados. Em novembro de 2003, quatro anos depois, o juiz Tsuyoshi Ono deliberou que a organização havia negligenciado grosseiramente os procedimentos de segurança e os condenou ao pagamento de uma indenização de 300 milhões de ienes – R$ 8,3 milhões -, que foi depois negociada para 90 milhões de ienes – R$ 2,5 milhões.

Tetsuya Ota, após o acidente manteve-se no automobilismo, porém, fora das pistas.
Tetsuya Ota, após o acidente manteve-se no automobilismo, porém, fora das pistas.

Após o processo, o caso foi abordado no documentário Crash e na biografia Re-Birth, que mostraram também a recuperação lenta do piloto. Tetsuya deu continuidade a carreira no automobilismo, mas agora, fora das pistas, comandando a Tezzo, uma empresa de tuning especializada em carros italianos. A JGTC e as competições automobilísticas como um todo, no Japão, começaram a contar com equipes e viaturas especializadas para apoio médico, inspiradas nas equipes médicas da IndyCar Series.

Shinichi Yamaji, o piloto que decidiu parar sua corrida e saltar de seu Mazda para apagar as chamas do carro de Tetsuya pilotou na JGTC até 2011. No dia 26 de maio de 2014, após as condições de sua saúde terem repentinamente piorado, Yamaji morre em um hospital, sendo o único a morrer em um dos mais brutais acidentes da história do esporte a motor.

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