Piloto clandestino

No fim dos anos 70, a Fórmula 1 ainda era muito parecida com a categoria garageira que era desde os anos 50. A rabeira do grid era cheio de figuras como Brian McGuire, Loris Kessel, Gimax, Emilio de Villota, Patrick Nevè, Arturo Merzario, correndo em bólidos usados de outras equipes como a McLaren, March e Surtees, em carros de fabricação própria (e quase artesanal) como Apollon e Kojima ou até em bizarrices autopropelidas como a Kauhsen. E desses homens desconhecidos e equipes de fundo de grid que vem a história desse texto.

Loris Kessel: No fim dos anos 70, a Fórmula 1 era tão garageira quanto 20 anos antes.
Loris Kessel: No fim dos anos 70, a Fórmula 1 era tão garageira quanto 20 anos antes.

Na temporada de 1977, um empresário europeu chamado Günther Schmidt comprou o espólio da divisão europeia da Penske, que havia disputado as últimas três temporadas da Fórmula 1 com relativo sucesso. Schmidt foi fundador da Auto Technisches Spezialzübehor, também conhecida por ATS. Ela fabricava rodas de liga leve para veículos da Porsche, da Volkswagen e da Mercedes Benz, fazendo um grande sucesso em terras germânicas. Com este sucesso de sua marca, sobrou tempo e fundos para dirigir uma equipe de Fórmula 1. Naquele ano, foi criada a ATS Racing Team.

Com alguns chassis PC4, usados da equipe americana, e Jean-Pierre Jarier nos comandos de um deles, a ATS estreou na quarta etapa do campeonato, o Grande Prêmio do Oeste Americano, em Long Beach. JP Jarier fez até um bom trabalho com o carro da ATS, largando em nono e terminando em sexto lugar – uma volta atrás do vencedor da etapa, Mario Andretti – e fazendo um ponto (numa época que se pontuava até o sexto lugar). Porém, a história só aconteceria oito etapas depois, na decima primeira etapa do campeonato, o Grande Prêmio da Alemanha, em Hockeinheimring.

J.P. Jarrier na ATS: Após o incrível resultado em Long Beach, Jarier não conseguiu mais ter boas corridas na ATS.
J.P. Jarier na ATS: Após o incrível resultado em Long Beach, Jarier não conseguiu mais ter boas corridas na ATS.

Após oito etapas com Jarier no volante de um único bólido americano, conseguindo resultados medianos, nunca muto perto da linha de pontos, a ATS chegou a sua etapa natal, Alemanha. Schmidt, para fazer média com os torcedores (e patrocinadores) locais, decidiu inscrever um segundo monoposto, que seria pilotado por um veterano piloto de turismo local, Hans Heyer. Heyer era conhecido por ser bi-campeão do Campeonato Alemão de Turismo (1975 e 1976), campeão europeu de turismo, em 1974, correndo com um Escort da Zakspeed e por sempre andar usando um chapéu típico tirolês, sendo uma das figuras mais engraçadas do grid. Porém, mesmo com toda a experiencia (tanto em turismo quanto em fórmula), a coisa desandou logo nas qualificações. Heyer não se adaptou ao carro, o que fez ele não conseguir tomar bem os tempos e não se qualificar, ficando à cinco segundos do pole position, Jody Scheckter. Maioria dos pilotos, a confrontar com tal situação, arrumaria as malas e ficaria vendo a corrida dos pits ou das tribunas, porém, tirolês não era um piloto normal.

Hans Heyer no cockpit da Penske-ATS: Logo entraria para a história da categoria.
Hans Heyer no cockpit da Penske-ATS: Logo entraria para a história da categoria.

Domingo, 31 de julho de 1977, dia da corrida.

Hans Heyer passava os primeiros minutos do warm-up dentro de seu carro, preso pelo cinto, de capacete e totalmente pronto para largar. Ninguém sabia o porque dele estar ali daquela forma, porém, na cabeça do veterano piloto de turismo, se passava a ideia que imortalizaria seu nome para o resto da história dos Grandes Prêmios claro, não de um modo glorioso, como Senna e Clark. Alguns minutos antes, Heyer havia conversado com alguns comissários de pista, que já o conheciam das centenas de etapas do Campeonato Alemão de Turismo que o piloto havia disputado para fazerem vista grossa para o que aconteceria logo em seguida. Heyer esperava, espreitando o grid para entrar em ação, até que o momento aparece. Bandeira verde, largam todos os pilotos. Porém, logo ao largarem, Alan Jones e Clay Regazzoni se enroscam na largada e abrem uma enorme confusão no grid. Era a hora perfeita para o plano entrar em ação, Heyer liga o motor Cosworth DFV de seu carro, sai sorrateiramente dos pits e vai para a pista como se nada tivesse acontecido. Todas as pessoas que estavam em Hockenheim aquele dia não podiam acreditar no que viam, um alemão, correndo um carro alemão, no Grande Prêmio da Alemanha, largando ilegalmente, provavelmente, para muitas daquelas pessoas, aquela foi a maior loucura que já viram.

Hans Heyer: Mesmo não conseguindo se qualificar, decidiu largar de qualquer jeito.
Hans Heyer: Mesmo não conseguindo se qualificar, decidiu largar de qualquer jeito.

Enquanto Hans dava voltas por Hockenheim, os comissários de pista pareciam não acreditar (ou, não ver) o alemão a correr ilegalmente a etapa, pois sequer deram bandeira preta para o piloto, que ganhava posições na rabeira do grid, já passando a McLaren do veterano do Vietnam, Brett Lunger. Porém, a diversão do piloto acabou na nona volta, quando o câmbio da velha Penske PC4 quebrou e deixou o engraçado piloto tirolês na mão. Só após nove voltas, duas posições ganhas e um câmbio arrebentado que a direção de prova finalmente o desclassificou.

Após sua única participação na Fórmula 1, Heyer passou o resto de sua carreira correndo (e vencendo) com carros de turismo e protótipos. (foto: Lutz Koch)
Após sua única participação na Fórmula 1, Heyer passou o resto de sua carreira correndo (e vencendo) com carros de turismo e protótipos. (foto: Lutz Koch)

Günther Schmidt – que viu toda a situação dos paddocks, incrédulo – pretendia contratar o piloto de turismo para o resto da temporada, porém após o show particular dele, acabou por deixa-lo de lado e contratar o austríaco Hans Binder, que começou a temporada pela Surtees e acabou voltando para a equipe patrocinada pela fabricante de camisinhas Durex. Já Heyer, nunca mais voltou a pilotar na Fórmula 1, o que não quer dizer que não continuou uma carreira vitoriosa, ganhando o Campeonato Alemão de Turismo em 1980, ás 12 Horas de Sebring em 1984, fazendo trio com Stefan Johansson e Mauricio de Narvaez e somente se aposentou em 1989, com 999 corridas em todos seus 30 anos de carreira.

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