A Indy desconhecida

Em 1996, um evento modificaria todo o automobilismo americano até os dias atuais. Tony George, dono da Indianapolis Motor Speedway (IMS), após anos de batalhas com representantes da CART (Championship Auto Racing Teams), o órgão que controlava a IndyCar Series, dá incio a primeira temporada da Indy Racing League (IRL), categoria criada dois anos antes, com a ideia de uma categoria de baixo custo e sem toda dominância tecnológica que havia na CART. Aquele ano, começaria o cisão que enfraqueceria os monopostos nos Estados Unidos, simbolizada por duas corridas acontecendo ao mesmo tempo e completamente separadas, a Indy 500 e a U.S.500. Porém, este não é o assunto do texto de hoje. Muito antes da cisão entre a CART e a IRL, outro homem, em outra categoria, havia tido a ideia de criar uma categoria alternativa no universo dos monopostos americanos, levando a uma das categorias mais desconhecidas e obscuras da história do automobilismo de elite (se é que se pode encaixar esta categoria aí).

IRL: Após a cisão de 1996, os monopostos nos Estados Unidos nunca mais foram os mesmos. Porém, não é disso que será falado hoje.
IRL: Após a cisão de 1996, os monopostos nos Estados Unidos nunca mais foram os mesmos. Porém, não é disso que será falado hoje (foto: Brian Cleary)

No ano de 1987, a veterana Can-Am Series já não era mais a mesma categoria que juntava grandes figuras do automobilismo mundial, como Phil Hill, Dan Gurney e John Surtees com protótipos de mais de 1000cv construídos por fabricantes da estirpe de Lola, Chaparral, McLaren, Porsche e Shadow. Tudo isso havia acabado de 1974, com a Crise do Petróleo (que afetou o automobilismo por inteiro), a categoria ficou parada até 1977, quando voltou, porém de modo completamente diferente, usando carros da antiga Fórmula 5000 com para-lamas e modificações que faziam os veteranos fórmulas se assimilarem a protótipos. Nos seus primeiros anos após a sua volta, a categoria até manteve o interesse de outrora, com participações de Patrick Tambay, Alan Jones e Jacky Ickx, mas não mais com o brilho que teve antigamente. Quando 1987 chegou, a Can-Am era um fraco certame com pilotos completamente desconhecidos e carros de velhos carros de Indy com carenagens de protótipos. Um desses pilotos desconhecidos era um homem que havia feito algumas poucas corridas na IndyCar de 1980 a 1984, tendo nem sequer qualificado em maioria das corridas que tentou. Porém, na Can-Am, ele dominava a temporada, com um veterano March 85C modificado, aquela última temporada, ele venceria. O nome desse homem era Bill Tempero.

Can-Am: Na metade dos anos 80, a categoria não era sequer a sombra do que foi um dia.
Can-Am: Na metade dos anos 80, a categoria não era sequer a sombra do que foi um dia.

Tempero, após ver a situação que a categoria estava, liderou um movimento dentro da categoria para abandonar os protótipos modificados e tornar a categoria, uma autentica “Fórmula”. Esse movimento interno, endossado por vários outros pilotos da categoria (que era organizada de modo similar a CART, por uma associação de pilotos e equipes), acabou com a Can-Am em 1987 e criou outra categoria em 1988, a American IndyCar Series. A ideia era somente dar continuidade a categoria, porém, assumindo a forma de categoria de “fórmula”, com os pneus descobertos. Os carros seriam veteranos carros de IndyCar, modelos da Lola e da March com até três anos de defasagem, equipados com motores Chevrolet 5.9 V8 “Stock Block”, semelhantes aos de NASCAR e herdados dos carros de Fórmula 5000 que foram usados no renascimento da categoria em 1977. A ideia, na época, era ter uma categoria de acesso, relativamente barata, onde se reaproveitasse chassis e motores antigos para formar pilotos para a categoria “master”, porém, não foi isso que aconteceu.

Chevrolet V8: A categoria, inicialmente, começou usando os mesmos motores que a Can-Am utilizava, o 5.9 V8 "Stock Block", porém, com o tempo, o regulamento autorizou outros modelos. (foto: Dan Wildhirt)
Chevrolet V8: A categoria, inicialmente, começou usando os mesmos motores que a Can-Am utilizava, o 5.9 V8 “Stock Block”, porém, com o tempo, o regulamento autorizou outros modelos. (foto: Dan Wildhirt)

Alguns anos antes, em 1986, a CART criou sua própria categoria de acesso, a American Racing Series. Essa categoria usava veteranos March 85B (renomeados e modificados com o nome de Wildcat), de Fórmula 3000 com motores Buick 4.1 V6, modificados de motores de produção da Buick. Essa categoria fez sucesso logo em sua primeira temporada, tendo atraído, além de vários pilotos americanos que corriam na Fórmula Ford 2000 e na Fórmula Atlantic, atraiu pilotos que correram na Fórmula 3000, como Guido Daccó e Fabrizio Barbazza. Quando a AIS foi criada, a categoria já tinha lá suas três temporadas e fazia sucesso com grandes grids. A categoria já saiu falhando em sua missão inicial, o que fez a categoria mudar seu rumo para o resto de sua existência, ela se tornou um refugio para pilotos amadores e donos de antigos carros da IndyCar, e o regulamento começou a se tornar mais aberto para trazer estes pilotos, autorizando o uso de motores Ford Cosworth DFX e Cosworth DFS, ambos 2.65l V8 Turbo e Buick/Menard 3.3 V6 Turbo ou atmosféricos. A categoria se tornou uma enorme feira da fruta.

Correndo em ovais curtos (como Tioga/Shangri-La), pista de rua (como a terrível pista de Juarez) e mistos (como Mountain View), normalmente, em pistas desconhecidas e em péssimo estado, a AIS era um enorme festival de amadorismo, desde a organização até a corrida. A categoria tinha um fraco desempenho, se comparada com sua irmã rica, ficando mais a mostra com a diferença entre a pole de Buddy Lazier em Willow Springs, na temporada de 1988, com um March 85C, com motor Chevrolet “Stock Block”, fez 1:13.332s, à sete segundos do recorde da pista, que é de Michael Andretti em 1987, com um March 87C, com motor Cosworth DFS, 1:06.050s. (Aliás, Buddy Lazier foi o único piloto que saiu da AIS e ganhou corridas em outra liga da Indy, tendo ganhado a Indy 500 de 1996, no primeiro ano da IRL).

A categoria virou uma grande "feira da fruta" de donos de antigos carros de Indy se divertindo em circuitos em estado terrível. (foto: Dan Wildhirt)
A categoria virou uma grande “feira da fruta” de donos de antigos carros de Indy se divertindo em circuitos em estado terrível. (foto: Dan Wildhirt)

A categoria foi resistindo, ano após ano, temporada após temporada, porém, acabou tendo o mesmo destino que sua contraparte rica teria anos depois. No ano de 2001 (após toda a tempestade que se deu após a cisão da IndyCar), a AIS teve sua própria cisão, com a criação da USSS (United States Superspeedway Series) e a debandada geral de pessoal e ativos da categoria criada por Bill Tempero, que acabou vendendo a categoria que criou para dois dirigentes, Barry Brooke e Bobby Brooks, que conseguiram da inicio a temporada de 2002, porém, nessa temporada, somente foram corridas duas etapas, tendo maioria canceladas e uma delas, em Phoenix, sem um registro sequer se foi disputada ou não. Estes dois dirigentes tentaram manter a categoria em 2003, até com um calendário para a temporada, mas a AIS jamais teria outra corrida após a etapa de Fontana, em 2002, com a vitória de Eddie Nahur. Definitivamente, havia acabado.

A USSS se manteve correndo até 2012, porém, foi tão ignorada que é difícil encontrar uma unica foto de uma corrida do certame. Ficamos então coma  foto de Jon Simmons nos tempos "áureos" da AIS, em 1993. (foto: Dan Wildhirt)
A USSS se manteve correndo até 2012, porém, foi tão ignorada que é difícil encontrar uma unica foto de uma corrida do certame. Ficamos então coma foto de Jon Simmons nos tempos “áureos” da AIS, em 1993. (foto: Dan Wildhirt)

 

Porém, a USSS resistiu de modo quase invisível, tendo registros que teve provas até o anos de 2012 (seu último registro foi de uma prova num evento em Tulsa, no Oklahoma). Quase não se encontra nenhuma informação sobre a categoria na internet, porém, há relatos que na segunda etapa da temporada de 2002, em Pikes Peak, haviam carros que iam desde os veteranos March que correram na Can-Am na metade dos anos 80, os rápidos Lola-Buick, que haviam disputado a IndyCar/CART no inicio até a metade dos anos 90 e até modernos G-Force, que haviam competido à menos de dois anos na IRL, o grid simplesmente contava toda história da Indy de 1985 até o momento.

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