Fogo aberto

Pit-stop, talvez um daqueles momentos emblemáticos dentro do automobilismo. O pequeno espaço de poucos segundos onde uma equipe inteira, formada por mecânicos e engenheiros tem que trocar pneus, reabastecer, algumas vezes, trocar peças inteiras da carenagem e da parte mecânica do carro e em certas categorias até o piloto em si, ao mesmo tempo que maioria dos outros competidores estão a disputar a prova a plena velocidade. Em um análogo futebolístico, seria como chamar o time inteiro para a área de reservas, trocar alguns jogadores enquanto o resto do escrete espera e o outro time, nesse tempo, estaria perfeitamente em campo, jogando.

A perfeição e a velocidade exigidas no pit-stop são uma demosntração pura de quão díficil pode ser o automobilismo. (foto: Eric Gilbert)
A perfeição e a velocidade exigidas no pit-stop são uma demonstração pura de quão difícil pode ser o automobilismo. (foto: Eric Gilbert/motorsport.com)

A ideia de rapidez e perfeição do pit-stop no automobilismo seja um símbolo de quanto exigente o automobilismo tem que ser. A perfeição e a velocidade são somente o mínimo exigido. Porém, factualmente, nenhum ser humano é perfeito, e em vários casos, as tarefas feitas pelo mesmo não são, por tabela, perfeitas. Em certas vezes, as tarefas que o ser humano, na necessidade exigida de perfeição e velocidade, acaba por errar ou passar por cima de regras importantes, e no caso de tal tarefa, isso pode se tornar em um incidente de proporções assustadoras.

Jos Verstappen saberia
Jos Verstappen saberia “na pele” as proporções que um problema nos pit-stops podem ter. (foto: autor desconhecido)

Grand Prix da Alemanha, Hockenheimring, 1994.

Jos Verstappen era um jovem piloto holandês de 22 anos, na época, só conhecido pelas atuações assustadoras (em um sentido muito bom) nas categorias de base, por ter sido disputado a tapa na pré-temporada, por equipes que variavam de uma Footwork em eterna crise para uma McLaren em recente crise e por ter se mostrado um barbeiro nas primeira etapas da sua primeira temporada na categoria, a mesma que essa história ocorreu.

Esta imagem pode resumir o Grand Prix até a volta 15. (foto: autor desconhecido)
Esta imagem pode resumir o Grand Prix até a volta 15. (foto: autor desconhecido)

15ª volta de uma confusa corrida. Em meio a toda a confusão de acidentes e quebras, poucos pilotos restavam ainda no primeiro terço da competição, e um deles era o jovem holandês, que em quinto lugar, esforçava o motor Ford V8 de sua Benetton ao limite do enorme circuito que era Hockenehimring. Isso era uma ótimo desempenho para o holandês, que havia tido maus desempenhos em Interlagos (onde foi fechado toscamente por Eddie Irvine na Reta Oposta, indo para direto para o ar com sua Benetton), Aida (saiu dos pits com os pneus frios e a cabeça quente, acelerou demais, rodou na pista e foi parar na caixa de brita) e Magny-Cours (onde destruiu uma câmera da FOCA, após bater fortemente contra o muro, nas classificações). Aquele momento, para o jovem, seria a redenção dele na equipe.

Seria um pit-stop normal, como este de Michael Schumacher, em Jerez de la Frontera, na mesma temporada. (foto: autor desconhecido)
Seria um pit-stop normal, como este de Michael Schumacher, em Jerez de la Frontera, na mesma temporada. (foto: autor desconhecido)

Como parte de uma estratégia de três paradas, a volta 15 seria a que Verstappen iria para os pits. Verstappen entrou ao pit-lane segurando seu quinto lugar e esperando que o trabalho da competente equipe da Benetton Formula fosse bom o suficiente para mante-lo em tal posição. Parou, o pirulito (aquela placa que indica o que o piloto deve fazer) estava em “Brakes On”, o carro foi levantado a centímetros do chão, os compostos macios Goodyear, já gastos de 15 voltas, eram trocados por novos, frios e prontos para as próximas voltas, a mangueira de combustível manuseada por dois mecânicos era introduzida no bocal, reabastecendo o sedento motor britânico com combustível francês fresco.

Naquele atribulado ano de 1994, haviam retornado os reabastecimentos nos pit-stops, isso fariam dos pit-stops mais lentos e qualquer modo de se ganhar tempo nos reabastecimentos era, de início, válido…e a Benetton já havia conseguido seu meio, retirando um lacre que, teoricamente, evitaria o vazamento de combustível ao retira-lo do bocal de reabastecimento, assim poupando décimos de segundo da operação de lacrar e deslacrar a mangueira de combustível. Porém isso levaria a um perigo de vazamento maior, que acabaria por acontecer um hora ou outra em um pit-stop, porém, nada disso era esperado, nem pelos mecânicos, nem por Verstappen, quando o holandês estava levantado pelos macacos dos mecânicos da equipe britânica.

O Combustivel vaza da mangueira direto contra a carenagem... (foto: autor desconhecido)
O combustível vaza da mangueira direto contra a carenagem… (foto: autor desconhecido)

Pneus novos encaixados o barulho matraqueiro das pistolas pneumáticas dos mecânicos cessa, o carro cai ao chão rápido, o pirulito é virado para throttle in, a mangueira é rapidamente retirada do bocal de abastecimento do monoposto, porém, após ser retirada, a mangueira espirra litros de combustível pela carenagem do bólido. Rapidamente o liquido escoa pelos espaços da carenagem e acaba por atingir o escapamento do motor Ford…

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…e, entrando em contato com partes quentes do carro, pega fogo. (foto: autor desconhecido)

…e começa, rapidamente, a levantar-se chamas da parte de trás do carro, que acabam por se espalhar para todos os lados, atingindo toda a equipe que estava em volta do carro. Pânico total! Todas as equipes do pit-lane começam a freneticamente tentar ajudar a equipe da Benetton a apagar as chamas, baldes d’água, espuma de incêndio e Verstappen pulando rapidamente do carro, após ser envolto pelas chamas. O fogo formou uma densa esteira de fumaça negra, que era visível por boa parte do público no circuito, tudo parecia que seria uma tragédia. Porém, por sorte, a situação acabou sendo outra.

Ao fim, ninguem se machucou gravemente... (foto: Arhur Thrill)
Ao fim, ninguém se machucou gravemente (foto: Arhur Thrill/Word Press Photo)

Após todo o pandemónio e o susto forte causado pelo fogo em pleno pit-stop, se constatou que ninguém se feriu com muita gravidade, por mais que todos os envolvidos, por praxe, foram levados ao centro médico para tratar as queimaduras com Gelol e outros adventos. Assim, Verstappen, mesmo com a cara frita, voltou a correr logo na outra etapa, os mecânicos voltaram a trabalhar nas outras etapas da categoria. Porém, a FOCA investigou a Benetton com relação ao equipamento de reabastecimento, que acabou sendo arquivada. Porém a ideia de retirar o lacre jamais foi posta em prática novamente.

Verstappen saiu com a cara queimada...nada que um Gelol não resolva. (foto: Autor desconhecido)
Verstappen saiu com a cara queimada…nada que um Gelol não resolva. (foto: Autor desconhecido)

Atualmente, o reabastecimento não mais pressupõe tais perigos, houveram centenas de melhorias nos equipamentos de reabastecimento que propiciaram uma melhora na rapidez e na perfeição que o pit-stop exige, da mesma forma, ainda podem haver incidentes como este.

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