Fuego em chamas

General Roca, 03 de abril de 1988.

Renault Fuego nas mãos de Juan Maria Traverso em 1986. Nesse carro, Traverso se tornaria mitico, tanto pelos varios camponatos que ganhou com o Renault quanto pelo que faria naquela etapa em General Roca, no ano de 1988.
O tal Renault Fuego branco, na temporada de 1986.

Era a segunda etapa da TC 2000 naquela temporada de 1988. Estavam a quatro voltas do fim da etapa, Silvio Oltra, liderava a corrida desde seu Renault Fuego #1, dourado – patrocinado pelos cigarros 43/70 -, após tomar a liderança no incio da corrida de “Concho” Lopez. Oltra havia ganhado a última etapa, no circuito de rua de Mar del Plata e pelo que tudo parecia, iria ganhar a sua segunda seguida no autódromo rionegrino. Porem, bem em sua cola, havia outro Renault Fuego, o #2, em sua pintura branca, negra e amarela, coberta pelos patrocínios da Lee e Bardahl, disputando encarniçadamente a liderança com o Fuego dourado.

Silvio Oltra em seu Renault Fuego coupé. Foi coadjuvante em um dia de chamas e fumaça.
Silvio Oltra em seu Renault Fuego coupé. Foi coadjuvante em um dia de chamas e fumaça.

Volta 45, Oltra vinha liderando, passou o “Curvón del Fondo” a toda, já preparando para frear e entrar na “horquilla” mais rápido e lá, na zona de frenagem para a entrada da “horquilla” estava o retardatário Carlos Crocco em seu Ford Sierra XR4 amarelo. Oltra, vendo o retardatário, pensou que ele abriria a curva para o líder passar e decidiu contornar a tangência para a direita da “horquilla” como se nada houvesse lá…porém não foi o mesmo que Crocco pensou. O piloto do Sierra amarelo manteve por dentro da curva, pensando que os dois o passariam por fora, isso forçou Oltra a frear para não acertar em cheio a traseira de Crocco….e ali, o piloto do Fuego branco #2 viu sua “chance de ouro”, abriu a curva por fora e passou os dois, sem discussão. Acabou por tomar a liderança da etapa nas últimas voltas em um único golpe. Tudo parecia agora estar certo, o piloto do Fuego branco ganharia sem mais problemas, mas só parecia…

Ao frear para não atingir o Ford Sierra de Carlos Crocco, Oltra perdeu a liderança para um Fuego branco que ultrapassou sem piedade, tanto Oltra quanto Crocco. (foto: Enrque Bianco/CORSA).
Ao frear para não atingir o Ford Sierra de Carlos Crocco, Oltra perdeu a liderança para um Fuego branco que ultrapassou sem piedade, tanto Oltra quanto Crocco. (foto: Enrque Bianco/CORSA).

O piloto dentro do Fuego abriu alguma vantagem em poucos metros, porem, nesses poucos metros, aconteceria um pandemônio que faria – mais uma vez – daquele homem de capacete branco azul e vermelho, uma lenda. Uma linha de óleo se rompeu no meio do carro, espalhando o lubrificante por todos os lados e no momento que o óleo da linha de lubrificação caiu em um pneu traseiro direito extremamente quente devido a fricção com o solo, as chamas tiveram incio dentro do carro francês, “El fuego tomo al Fuego”. Em poucos segundos, a fumaça havia tomado todo o habitáculo do piloto, impossibilitando qualquer visão e ainda podendo intoxicar o piloto, isso já seria motivo para qualquer piloto normal  parar o carro em alguma área de escape e abandonar a corrida de uma vez, mas tenha certeza, o piloto dentro daquele carro não era nada normal.

Poucos metros após tomar a liderança, as chamas começaram no Renault Fuego. (Enrique Bianco/CORSA)
Poucos metros após tomar a liderança, as chamas começaram no Renault Fuego. (foto: Enrique Bianco/CORSA)

Por entre toda aquela fumaça, uma traseira em chamas, um competitivo Silvio Oltra colado na traseira e a chance do motor quebrar por pane seca (lembra que o óleo estava a vazar), o piloto do Fuego branco simplesmente não parou, continuou no mesmo ritmo, apesar de tudo que acontecia a sua volta pesar o contrario. O manômetro de óleo mostrava que a pressão se perdia de pouco a pouco, o para-brisas já nada mais mostrava, a respiração estava difícil, mesmo com a “janela” do carro aberta (e expelindo fumaça como um trem), o óleo vazava pela traseira, deixando as coisas cada vez mais difíceis não só para o piloto do Fuego branco, como também para Oltra, que vinha colado atras, pois agora, estava correndo numa pista completamente encharcada de óleo e com todo o trilho de fumaça indo direto contra o para-brisas de seu Renault Fuego. Porém, apesar de tudo, da mesma forma, os dois disputavam encarniçadamente a liderança, curva por curva, metro por metro.

Segurar Oltra se tornava algo cada vez mais difícil.
Segurar Oltra se tornava algo cada vez mais difícil.

O Fuego perdia um segundo por volta, pois o motor já cedia pela falta de óleo, porém, seu piloto compensava segurando Oltra, fechando a frente, não o deixando passar, adivinhando onde estava a pista, pois nada mais via do que fumaça que teimava em não cessar, como um Bernd Rosemeyer em Nürburgring Nordschleife. A última volta chegava, Oltra se aproximava cada vez mais, o piloto já não sabia mais como segurar com um carro em frangalhos, abria as curvas só pelo que se lembrava do circuito. Cada vez mais lento, cada vez mais perto.

O piloto chegava apoteoticamente.
O piloto chegava apoteoticamente.

Ao chegar na reta de chegada, as coisas ficavam cada vez mais difíceis perto do fim, o carro de Oltra já estava perfeitamente colado, pronto para passa-lo, o público gritava nos pitlanes, todos amontoados para ver o piloto chegar heroicamente. A bandeira quadriculada descia no momento que o Fuego em chamas passava a linha que demarcava o fim da corrida. Era o fim, já não precisava mais todo aquele esforço, !ello ganó!

O piloto saiu do carro como um herói...um herói cansado.
O piloto saiu do carro como um herói…um herói cansado.


O piloto nem passou a primeira curva, já não agüentava respirar em tais condições o motor também já estava em total limite de sua lubrificação, estava a ponto de quebrar. Jogou o carro contra a área de escape, abriu a porta ainda em movimento se atirou do carro direto para os braços de um público totalmente extasiado com o que acabara de fazer. O piloto de macacão branco se tornava lenda, mais uma vez.

Bem, aquele piloto ainda teria muitos anos, muitos heroísmos, muita coisa a se contar. Hoje, o nome dele é uma lenda no automobilismo argentino tão grande quanto Fangio ou Reutmann, o nome dele é Juan Maria Traverso.

E sobre ele, bem, há ainda muitas história a contar.

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